Gestão estratégica pode ajudar municípios a superar os desafios do Custo Brasil

Por Nery Assis

O chamado “Custo Brasil” continua sendo um dos maiores obstáculos à competitividade das empresas brasileiras. Burocracia, excesso regulatório, alta carga tributária, dificuldades logísticas e insegurança jurídica impactam diretamente a produção, os investimentos e a geração de empregos no país.

Embora o problema seja nacional, parte das soluções pode surgir no âmbito local. Municípios, quando atuam de forma estratégica e integrada com outros entes públicos e com a iniciativa privada, podem criar mecanismos capazes de reduzir os impactos do Custo Brasil e fortalecer o desenvolvimento regional.

Neste artigo, entenda como ferramentas institucionais, consórcios públicos, ZPEs e parcerias intergovernamentais podem contribuir para a criação de um ambiente de negócios mais competitivo e sustentável.

O que é o Custo Brasil e como ele afeta os municípios?

O Custo Brasil é definido como o custo adicional que as empresas brasileiras enfrentam para produzir no país, quando comparado à média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Esse custo aparece em diversos fatores que afetam diretamente a competitividade das empresas, como a complexidade tributária, os altos custos de energia elétrica e gás natural, problemas de infraestrutura e logística, além das barreiras ao comércio exterior. Essas dificuldades estruturais acabam formando o chamado “Risco Brasil”, reduzindo a competitividade do ambiente econômico nacional.

Nos municípios, os reflexos são percebidos na dificuldade de atrair investimentos, na manutenção das empresas já instaladas e, consequentemente, na geração de empregos e renda local.

Nesse cenário, a atuação do poder público municipal, mesmo muitas vezes limitada por recursos e competências, pode ganhar força por meio de ações colaborativas e do uso estratégico de instrumentos jurídicos e institucionais já existentes.

Ferramentas institucionais para reduzir os impactos do Custo Brasil

O ordenamento jurídico brasileiro já possui instrumentos capazes de auxiliar os municípios no enfrentamento do Custo Brasil. O diferencial está na capacidade de coordenação, planejamento e atuação conjunta entre os entes públicos.

Estas estratégias podem incluir, por exemplo:

1- Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs)

As Zonas de Processamento de Exportação, conhecidas como ZPEs, são áreas de livre comércio voltadas à produção de bens destinados à exportação ou à prestação de serviços ligados ao mercado externo.

O modelo oferece benefícios tributários, cambiais e administrativos, incluindo a suspensão de tributos federais relacionados à produção exportável.

Os municípios podem participar diretamente da criação e implantação de ZPEs, seja de forma individual ou em parceria com estados e outros municípios.

Benefícios das ZPEs para o desenvolvimento regional

As ZPEs podem contribuir para:

  • atração de investimentos;
  • fortalecimento industrial;
  • geração de empregos;
  • ampliação da competitividade regional;
  • desenvolvimento logístico.

Casos como Pecém, no Ceará, e Lages, em Santa Catarina, demonstram o potencial desse instrumento para impulsionar economias locais.

Apesar disso, o modelo ainda é pouco utilizado no Brasil, especialmente quando comparado a países como a China, que possui centenas de zonas de exportação em funcionamento.

2 – Consórcios públicos como estratégia regional

Os consórcios públicos, regulamentados pela Lei nº 11.107/2005, permitem que municípios e outros entes federativos atuem de forma conjunta na gestão de serviços e projetos de interesse comum.

Essa ferramenta é especialmente importante para municípios menores, que muitas vezes possuem limitações financeiras e operacionais.

Como os consórcios ajudam a reduzir o Custo Brasil

Os consórcios podem ser utilizados em diversas áreas estratégicas, como:

  • Infraestrutura e logística

A atuação conjunta permite planejar obras regionais, melhorar estradas, criar terminais logísticos e otimizar estruturas de transporte.

  • Licenciamento ambiental

A padronização regional de procedimentos pode reduzir a burocracia e acelerar investimentos.

  • Compras públicas

Consórcios possuem vantagens em processos licitatórios e podem gerar economia de escala nas aquisições públicas.

  • Gestão compartilhada de serviços

A cooperação entre municípios facilita a implementação de políticas públicas e melhora a eficiência administrativa.

Além disso, os consórcios contribuem para o planejamento regional de longo prazo, reduzindo dificuldades estruturais e fortalecendo estratégias de desenvolvimento econômico.

3- Parcerias com estados e iniciativa privada

Outra estratégia relevante é a integração entre municípios, governos estaduais e setor privado.

Programas estaduais de atração de investimentos demonstram como a atuação coordenada pode criar ambientes econômicos mais competitivos.

Incentivos para infraestrutura e desenvolvimento

Instrumentos como o Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (REIDI) permitem redução de custos em projetos ligados a:

  • transportes;
  • energia;
  • saneamento;
  • portos;
  • logística.

Além disso, municípios podem investir na criação de distritos industriais e logísticos, oferecendo infraestrutura adequada e incentivos locais para atrair empresas.

Governança e planejamento regional são essenciais

A efetividade dessas ferramentas depende diretamente da qualidade da governança pública e da capacidade de articulação institucional. Consórcios, associações de municípios e fóruns regionais podem atuar em:

  • Diagnóstico e planejamento: Identificar os principais gargalos do Custo Brasil na região e planejar ações conjuntas para superá-los;
  • Negociação e advocacia: Atuar de forma coordenada junto aos governos estaduais e federal para pleitear investimentos em infraestrutura e aprimoramento da legislação; e
  • Compartilhamento de boas práticas: Trocar experiências e modelos de sucesso entre os municípios, otimizando a aplicação das ferramentas institucionais.

Assim, os impactos negativos das dificuldades estruturais enfrentadas por cada setor, cidade ou região podem ser reduzidos por meio de planejamento e ações estratégicas. Esse processo depende da cooperação entre municípios e demais entes públicos, além de uma atuação planejada, coordenada e integrada com o mercado e as comunidades locais, buscando resultados concretos e alinhados às necessidades de cada grupo social envolvido.

Conclusão

O enfrentamento do Custo Brasil não depende apenas de reformas nacionais. Municípios também possuem papel relevante na construção de um ambiente econômico mais eficiente e competitivo.

Ferramentas como ZPEs, consórcios públicos, parcerias intergovernamentais e incentivos à infraestrutura demonstram que a atuação local pode gerar impactos concretos no desenvolvimento regional.

Mais do que reduzir burocracia e custos, essas estratégias fortalecem a economia, atraem investimentos, ampliam a geração de empregos e promovem desenvolvimento sustentável.

Para isso, planejamento, cooperação institucional e visão de longo prazo tornam-se elementos essenciais para transformar desafios estruturais em oportunidades de crescimento.

 

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